Uma jornalista, cabeça a mil. Vontade de debater o mundo que me rodeia, comentar o dia-a-dia, trocar ideias livremente. A busca por um espaço democrático onde pudesse exercer minha criatividade e mostrar minha visão da vida resultou em "Crônicas de Saias".

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Veríssimo!

Peço licença ao meu idolatrado Luis Fernando Veríssimo para replicar aqui, neste espaço.com, sua crônica de hoje, veiculada no Globo e mais um sem número de veículos pelo Brasil. O cara tá na Copa, passando um frio duca e mesmo assim não perde a veia afiada. Sensacional!

O DUNGA DO DUNGA
Quando jogava o Dunga se impunha pelo seu jeitão tosco mas efetivo e pelo seu comando. Não era raro ralhar um companheiro ou exigir dos outros a mesma garra com que jogava. A seleção campeã da Copa de 94 nos Estados Unidos se organizou em torno do núcleo duro do time, que era o Dunga. A de 98, na França, também, e só não venceu de novo por um conjunto de circunstâncias misteriosas – a síncope do Ronaldo, os gols de cabeça do Zidane – que nunca mais se repetiram. A única vez, depois do jogo final Brasil x França de 98, em que o Zidane deu uma cabeceada com sucesso foi no peito daquele italiano que xingou sua mãe, na final da Copa de 2006. Mas pode-se dizer que o Brasil chegou à final na França, em grande parte, devido à
liderança do Dunga dentro do campo.
Está faltando um Dunga na seleção do Dunga. Ou talvez ele já exista mas ainda não se identificou. Ninguém do nosso meio-campo atual parece ter a mesma imposição sobre o time que tinha o Dunga. Talvez o próprio Dunga tenha decidido que um Dunga fora do campo dispense um Dunga lá dentro. Talvez esteja, vaidosamente, protegendo seu legado: ninguém mais depois dele pode ser Dunga, nem como metáfora. Não sei. O fato é que fica a pergunta. Quem é o Dunga do Dunga?

Depois de ontem o apelido da seleção espanhola precisa ser revisto. Em vez de “fúria”, “raiva”. Perder para a Suíça tem que dar raiva. Equivale a ser atropelado por um patinete. Pior do que a dor física é o constrangimento moral, e o que você vai dizer em casa. Se bem que... A Suíça, apesar de não ter uma grande tradição futebolística, produz bons jogadores, com muita ajuda da sua mescla de culturas e da imigração. (Fui olhar a lista de jogadores inscritos da Suíça e dei até com um Tranquillo Barnetta). O Gelson Fernandes, autor do único gol da partida de ontem, tem mais pinta de centro-avante da Nigéria do que de qualquer variedade de suíço. E, como muitos outros do time, joga no exterior. Assim a Espanha não pode alegar que o frio alpino que está fazendo na África do Sul ajudou os suíços. Seu único consolo é que o time da Suíça não é exatamente um patinete.

Os fatos mais comentados da noite de terça foram, pela ordem: o frio, o frio, o frio, o gol do Maicon, o gol do Robinho, o casacão do Dunga e o frio. Pela primeira vez na minha vida senti algum tipo de identificação com o mundo inanimado. Me senti como um picolé.

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