Uma jornalista, cabeça a mil. Vontade de debater o mundo que me rodeia, comentar o dia-a-dia, trocar ideias livremente. A busca por um espaço democrático onde pudesse exercer minha criatividade e mostrar minha visão da vida resultou em "Crônicas de Saias".

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Dapieve e a amizade

Arthur Dapieve é destes jornalistas que escrevem o que vc gostaria de ter escrito. Tá tudo ali, na sua cabeça, pronto para tomar de assalto seus dedos no teclado e de repente... ele já escreveu, já publicou, já colocou no jornal suas palavras. Ruim? Não, é um pouco frustrante, mas ao mesmo tempo é tão bom saber que tem alguém que traduz parte do seu sentimento.
Na sexta-feira, ele fez uma crônica que tem tudo a ver com o que venho pregando nos últimos tempos.
Poucos e bons amigos. Sempre. Isso, sim, vale a pena.

Da amizade
Há coisas que te ajudam a viver

A presidenta da Argentina estava em visita oficial ao Brasil. Como parte dos compromissos, ela e seu colega brasileiro foram visitar, na companhia do prefeito de uma capital, a Escola Municipal Diego Armando Maradona. Lá, assistiram aos alunos jogarem uma pelada e ouviram o orador eleito pelas turmas. “Blá-blá-blá, em nome de tudo isso, eu saúdo a presença da presidenta da Argentina, nosso país irmão”, finalizou Joãozinho, sob aplausos de ambas as comitivas.
Quando as crianças cercaram a visitante ilustre, o presidente brasileiro aproveitou para puxar o pequeno orador a um canto e perguntar: “Pô, Joãozinho, vem cá, tu não acha que exagerou chamando a Argentina de país irmão, não?” O aluno não arredou pé: “Não, senhor presidente, é país irmão mesmo!” Ao que o presidente insistiu: “Pô, não dava pra tu chamar só de país amigo, não?” E disse o Joãozinho, triunfante: “Não, senhor, porque amigo a gente escolhe!” Eu tinha pouco mais idade que o Joãozinho quando li essa piada — sem as modificações ditadas pela memória e pela atualidade, claro — numa antologia do “Pasquim”, o glorioso tabloide satírico que pentelhava a ditadura militar e ao qual eu fora apresentado pelo meu pai. Apesar dessa valiosa herança, a piada sempre pareceu dizer-me como eu me sentia, entre a família e as amizades. Por razões que aqui não importam, os amigos se tornaram mais importantes do que os familiares. Sei que é algo meio duro de ser escrito, sobretudo numa sociedade que preza muito, ao menos da boca para fora, a “instituição da família”, mas é a mais pura verdade.
Nos últimos meses perdi dois amigos, além de uma tia de quem eu gostava, mas que já não me reconhecia. Dizer que essas perdas me colocaram para pensar na morte pela enésima vez seria banal. Inclusive porque não há dia da vida em que eu não pense na morte, ora com um sentimento de injustiça, ora com uma esperança de descanso. “Há uma luz que nunca se apaga”, cantou um cara a quem aprecio, Morrissey, sem intenção de transcendência.
O problema não é a morte, não é nem o morrer, como pensam alguns outros ateus. O problema é não conseguir enxergar o prazo de validade na embalagem. Embalagem que, afinal, também é o conteúdo (não creio em fantasmas na máquina).
Meus dois amigos não se conheciam e morreram de repente, de ataque cardíaco, pouco antes ou pouco depois de completarem 50 anos. Como eu dizia, essas perdas me colocaram para pensar não na morte, mas na amizade.
Porque o bode decorrente tem algo de paradoxal. Associo a amizade a algo leve, sem cobranças, ressentimentos ou segundas intenções, a um exercício prazeroso normalmente praticado entre tragos largos e ingredientes gordurosos (aliás, um dos meus amigos era garçom), a ocasiões nas quais se tem a impressão de que a vida é bela. A morte, nesse cenário, é aquela bêbada chata que insiste em sentar-se à mesa, mesmo nunca tendo sido convidada. O Zuenir Ventura tem dito por aí que considera a amizade um sentimento mais forte que o amor, porque ela não tem cláusula de exclusividade, nem costuma ter ciúme. Mestre Zu sabe tudo. Eu só acrescentaria que a amizade não pede exclusividade, mas inclui fidelidade.
Conseguir reunir-me com os amigos em torno de interesses comuns — música, literatura, política, viagens e, claro, uma boa sacanagem — costuma ser um dos grandes momentos da minha semana. Quando não consigo, a vida ao lado da família que escolhi ter acaba prejudicada pelo meu mau humor. Note que “interesses comuns” não equivale a “opiniões comuns”, como acreditam certos círculos mentalmente preguiçosos. Seria chatice mortal ficarmos horas em torno de uma mesa concordando em tudo. Daí a importância do futebol, não só para as amizades como para o aprendizado democrático de cada dia. "Pênalti indiscutível", na prática, é apenas uma figura de linguagem.
Por isso, valorizo ainda mais os amigos.
Eles me expõem a outras formas de pensamento, até quando a gente acha que está só jogando conversa fora, sem pensar em nada.
Fico vendo as pessoas se gabarem de ter não-sei-quantos amigos no Facebook. Acho uma vulgarização da palavra amigo e do próprio sentido de amizade. Nessa conta, entra gente que nem sequer se conhece. Eu não quero ter um milhão de amigos, não, Roberto.
Nem Facebook. Não que seja homem de poucos amigos — e, isso vai sem eu dizer, amigas —, mas gosto de cultivá-los um a um, por suas características peculiares, não via estatísticas.
Também não menosprezo amizades nascidas na internet. Entretanto, para se efetivarem amizades, elas têm de sair do virtual, para o prazer do convívio à mesa. Algo revelador, íntimo e divertido, tipo assim... “O encontro marcado”, clássico do Fernando Sabino, ou “Meus caros amigos”, filme(s) do italiano Mario Monicelli.
Infelizmente, amigos não duram para sempre, é a óbvia constatação dos últimos meses. Ou porque eles fazem a desfeita de morrer antes da gente ou porque alguma circunstância os afasta em vida. Porém, o bem-estar que a amizade proporciona, este sim, é eterno. Até a hora em que o nosso próprio coração, cansado de ver a mesa se esvaziando, faz ao garçom que não está mais lá o gesto de escrever algo no ar.

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